sábado, 13 de março de 2010

Familia

Eu sempre achei que familia fosse aquele monte de gente com quem estamos ligados, mesmo contra a nossa vontade. Ou entao aquelas pessoas que ficam tanto na sua casa e ja ha tanto tempo que ja te viram dormir, arrotar, vomitar, chorar e todas essas coisas que a gente nao gosta muito de fazer no meio de estranhos, entao depois de alguns momentos constragedores, damos a essas pessoas o titulo de "ela/ele-eh-de-casa" e damos a elas o poder de abrirem nossas geladeiras. E ficamos contentes com isso, pois pudemos escolher os membros dessa familia, o que nao acontece no caso das familias tradicionais. Esses sao nossos amigos. O que eu nao sabia ate agora eh que o principal fator para o surgimento de uma familia eh a solidao.

Os reflexos dessa solidao se exibem o tempo todo, como pequenas explosoes que brotam de dentro das pessoas e dizem " fica comigo". Foi mais ou menos isso que eu vi no sorriso da Laura que, apesar de toda a sua arrogancia e autoconfianca irritante, ficou legitimamente feliz quando viu que, embora seus pais nao estivessem la, alguem estava assistindo sua apresentacao de danca e torcendo por ela.

Ou quando eu levo o Jake pra aula de danca e vejo seus olhos me procurando sempre que a professora o elogia. E eu me encho de orgulho a cada vez que ele cruza a sala com seus tapping shoes, como se ele fosse meu filho.

Familia tambem tem alguma coisa a ver com contar com uma pessoa com quem vc nao fala mta coisa alem de "oi, tudo bem?" e "boa noite" quando, por algum motivo imbecil, voce simplesmente nao consegue ligar seu carro num dia de chuva.

Eh perceber que, na verdade, ela nao estava aqui por outros motivos, mas por mim, porque eramos duas pessoas solitarias num sabado a noite: eu porque estava trabalhando; ela, eu nao sei. E no meio desses desencontros de "tudo bem, eu posso ficar com o Jake enquanto vc leva a eveline em casa" eu acabei encontrando uma amiga. Pra quem ia so dar uma passadinha aqui, ela foi embora meio tarde; pra quem nunca fala sobre seus namoros, ela me falou de todos eles; pra quem nao gosta de falar sobre suas memorias, ela me contou segredos que me pareciam bem secretos; pra quem diz que faz o maior esforco do mundo pra nao chorar, ate que ela chorou bastante. Entao eu pensei "ela nasceu e cresceu aqui e no fim das contas passa a noite de sabado com a aupair de uma de suas clientes?". E foi ai que eu constatei que familia eh um quebra-cabecas que a gente vai resolvendo aos poucos. Nao eh uma coisa pronta, estabelecida, como a gente pensa que eh. E pensando bem, tambem nao sei se eh exatamente escolher as pessoas certas. Eu acho que se trata mais de momentos familiares, quer dizer, momentos em familia. No fim das contas, nossa familia pode acabar sendo qualquer pessoa: uma adolescente orgulhosa demais pra dizer o quanto precisa de vc; uma amiga que sacrifica uma sexta feira a noite e um dia de sabado pra fazer o seu trabalho menos tedioso; uma crianca que te garante boas risadas por ser o unico menino na aula de danca que insiste em vestir saia simplesmente por nao entender porque ele nao deve vestir a saia se gostou da cor e principalmente das estrelhinhas que estao penduradas na barra; eh uma psicologa solitaria demais pra sair pra alguma balada ou pra ir pra casa de uma amiga e acaba passando a noite com voce , se despedindo de forma meio torta, como que se arrependendo das lagrimas e dizendo "a gente podia ir no cinema um dia desses"; eh mandar uma mensagem de texto pra sua amiga so pra dizer que esta entediada e se sentir mais animada com qualquer que seja a resposta.

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