- Se isso acontece na sua casa, voce nao tem janela - ela disse, enquanto dava partida no carro, no estacionamento da Target.
Fiquei pensando nisso e ela tem razao. Se acontece um incendio aqui, eu morro queimada aqui no basements porque nao tem como sair. E ainda que tivesse uma janela, dessas tipicas de basements, eu nao conseguiria sair do mesmo jeito rsrs. Passei a tarde pensando nisso e conclui que apesar de tudo, eu gosto do basements. Primeiro porque assim fico longe do resto da familia, entao tenho mais privacidade, e segundo porque eh o lugar mais frio da casa e nesse verao nordestino que esta atualmente, tem sido um privilegio dormir no basements.
Eu ja tinha esquecido essa historia quando, ao conversar com minha mae pela internet, ouvi um barulho muito irritante e o Jake gritando. O barulho era parecido com um alarme e quando sai do quarto pra acalmar o Jake senti o cheiro de fumaca e vi a nuvem que entrava no basements pela escada. So entao me toquei que o alarme de incendio tinha disparado. Na hora meu coracao parou e fiquei pensando "sera possivel?". Mas depois pensei que isso era ridiculo, que o Craig teria feito alguma coisa, que ele nunca deixaria eu e o Jake no basements durante um incendio. Eu arrastava o Jake, mas ele nao saia do lugar. Gritava, chorava, esperneava...mas andar que eh bom nada. Peguei ele no colo e subi as escadas. Quando cheguei na cozinha, entendi o que tinha acontecido: o Craig tinha se encarregado de fazer o jantar rsrsrs.
Minha host, muito ritualista, perguntou se eu ia sair e eu disse que provavelmente ia jantar com a Eveline em algum lugar. Entao ela disse:
- Vc devia sair com o french man (ela sabe o nome dele, mas so se refere a ele como "french man" e diz que adora french men rsrs).
- Yeah, right...
(No comeco da semana ela perguntou se eu tinha saido com o frances e eu, como sempre, tinha saido com a Eveline. Comentei que ele provavelmente tinha conhecido outras aupairs e que muitas delas sao muito bonitas, que eu nao tinha a menor chance. Entao ela disse com um tom de voz mais infantil do que eu gostaria de ter ouvido "ohhh....I'm sorry...vc gosta dele", me defendi imediatamente "No, I don't!" "Yes, you do. Senao, o teria chamado pra um cafe sem se importar com o fato de ele ter ou nao conhecido outras garotas".)
- Ja te contei a historia do *@&$($# e do $&@*#? - ela perguntou, enquanto amarrava o cabelo.
- De quem?
Ela suspirou e se debrucou sobre o counter:
- Eh um conto de fadas. Tinha uma tartaruga...
- Ah, sim. A tartaruga e a lebre...conheco, sim. Eh uma fabula.
- Entao...tenha paciencia! Devagar e sempre! E o french man sera seu.
Pensei em dizer alguma coisa como "e quem disse que eu o quero", mas eu sei que ela ia perceber. Imediatamente lembrei da pobre tartaruguinha que encontrei morta no meio da estrada e que me fez pensar "se ate os velozes esquilinhos as vezes sao pegos pelos carros, imagine a pobre tartaruga. Nao tinha nenhuma chance". Hehe, eu sou a tartaruga....
Entao, conforme combinado, eu e a Eveline fomos jantar na Pizza Hut. Nao sei porque insistimos em ir naquele lugar. Alias, por que EU insisto em ir la, se a pizza nem eh tao boa e o servico eh pessimo. Acho que porque eh a unica pizzaria que nao eh so delivery. Enfim...a questao eh que fomos la. Ao chegarmos, perguntei onde podiamos nos sentar e a garconete disse, com uma cara de bunda muito legitima "em qualquer lugar". O outro garcom levou a gente pra uma droga de mesa manca. A comida demorou pra chegar e o macarrao da Eveline parecia de plastico. Minha pizza tinha gosto de forno e a garconete ligou o aspirador de po e ficava pra la e pra ca com aquela barulheira. Como se nao bastasse, ela comecou a apagar as luzes. Mas a gente tava de bom humor e tava era achando graca da situacao.
Aqui as pessoas nao deixam nada nos pratos, colocam tudo numa caixa e levam pra casa. Entao antes mesmo de a gente pedir a conta ou dar qualquer sinal de que estava indo embora, ela apareceu com uma caixa pra pizza e a conta. Quando saimos estava chovendo e corremos ate o carro. O que nao adiantou nada, porque eu nao conseguia achar as chaves do carro. Coloquei a caixa em cima da van pra procurar a chave e o vento levantou a tampa e molhou tudo a pizza. Aposto como aquela garconete mal amada estava do lado de dentro do restaurante, morrendo de rir. (eu, pelo menos, tava).
A chuva comecou a ficar pior e aqui ja eh ruim dirigir a noite, com chuva entao...Dei um guarda chuva pra Eveline quando chegamos em sua casa. Ela abriu a porta pra abrir o guarda-chuva, mas ficou se molhando pq ele nao abria nem a pau. Peguei o guarda chuva e tentei abrir, e ele abriu, so que com a porta do carro fechada, quase cegando a Eveline rsrs.
Vim pra casa pelo caminho mais longe, pois mesmo dirigindo eu amo a chuva. Principalmente uma como essa, com raios e trovoes. Fiquei pensando que, realmente, seria muito bom se meu quarto tivesse uma janela. Talvez eu nao estaria aqui, estaria com a cabeca encostada no vidro, escrevendo cartas pro Brasil.
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