terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O que eu mais queria...

A manha era a mesma de hoje, fria e cinzenta. Naqueles tempos, ainda costumava garoar em Sao Paulo e o inverno era muito mais frio. As 6h30 da manha dava ate pra ver neblina da janela da casa da minha avo. Talvez a garoa seja de um dia e a neblina de outro, mas na minha memoria, elas sempre aparecem juntas. Nao sei porque.

Me lembro de estar sentada na cadeira da cozinha, encolhida, sonolenta e com frio, sentindo o cheiro quente do cafe que minha avo estava fazendo. Naquela epoca, ainda se usava coadores de pano e, nao sei se por isso, mas o cafe era mais gostoso. Minutos depois chegava meu tio com um saquinho de pao todo amassado pela sua pressa e impaciencia. Nos raros dias em que ele estava de bom humor, dizia "anda logo que o pao hoje esta quentinho", mas nesse dia ele nao estava de bom humor. Ele apenas colocou o saco de pao em cima da mesa e foi pra janela, fumar seu cigarro. Ao ouvir o barulho do saquinho se abrindo, minha avo disse, como sempre, "Ve se tira o miolho, minha filha. Pao estufa a gente!". Eu devia ter escutado e tambem ter tomado mais cafe com Adocil, como ela sempre me recomendou. Eu devia ter escutado muitas coisas...

Entao eu passava a manha inteira brincando no quintal, ate ouvir ela me chamar pro almoco: arroz, feijao e farofa de ovo. Eu adorava. E ela sabia disso.

Depois do almoco, eu voltava a brincar no quintal ou na rua de casa. Meus pais chegavam a noite e minha mae as vezes demorava um pouco pra fazer o jantar, entao eu ia na minha avo espiar o que ela estava fazendo. Nessa noite ela estava fazendo chuchu refogado. O feijao era o mesmo do almoco, mas o arroz era fresquinho. Eu quase sempre deixava de lado o jantar da minha mae e ia comer na minha avo. E as vezes, quando ja tava quase na hora de dormir, decidia que queria dormir la, na cama dela.

Naqueles tempos eu nunca imaginei que 15 anos mais tarde estaria aqui, escrevendo sobre ela e tomando um cafe organico, de alta qualidade, colhido nos cafezais da Etiopia, mas feito numa cafeteira sem graca. E o pior de tudo, como uma usurpadora (novelas mexicanas ensinam alguma coisa) de uma vida que nunca sera minha. E que pensando bem, eu nao queria mesmo que fosse. Eu trocaria todo o conforto dessa casa, desse estilo de vida da classe media americana por um prato de arroz, feijao e farofa de ovo na casa da minha avo. Eu trocaria o resto da minha vida inteira pra poder viver mais um ano na minha infancia.

Um comentário:

  1. Realmente o café da vó é o melhor!E ainda não encontrei uma vista como a daquela janela a noite. Às vezes me lembro de como ficava maravilhada qndo criança olhando as estrelas por lá...Na época que eu precisav de uma cadeira para chegar até ela...
    Mas sabe, ter saudades é algo bom...Porque a sensação é boa...Lembrar de momentos felizes, e da infância que teve seus momentos mágicos.

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